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Transparência

Quem deixou de votar no Lula e votou em Flávio no primeiro turno

William Berk @willberk Servidor e-mail institucional IBGE editada há 2 horas 13 visitas

Vídeo do Spotniks Lula vs Flávio: o que os números dizem, publicado em 19 de outubro. O endereço é este.

O vídeo toma a escola Nova Contagem como local de votação, com 17 seções e 6.600 eleitores. Diz que, no primeiro turno de 2006, Lula teve 78% dos votos válidos ali. Diz que, no primeiro turno de 2026, Flávio Bolsonaro passou Lula nesse local por 32 votos.

O vídeo também separa locais. Diz que 3.157 mudaram de cor, de Lula em 2022 para Flávio em 2026, e que a vantagem de Lula nesses locais encolheu 769 mil votos. Diz que outros 4.394 continuaram com Lula e mesmo assim a vantagem caiu 10 pontos ou mais, somando 979 mil votos. A leitura do vídeo é que, só nos locais que seguiram com Lula em primeiro, a vantagem encolheu mais do que em todos os que viraram para Flávio.

O vídeo subtrai os totais e chega a 2.224.965 votos. Esse inteiro coincide com o par que o Ouviram publicou em 6 de outubro de 2026: Flávio Bolsonaro 56.104.503 (47,03%) e Lula 53.879.538 (45,16%), com 100% das seções totalizadas, na leitura do Ouviram.

O vídeo conta 711 municípios em que Lula foi o mais votado em 2022 e Flávio foi o mais votado em 2026, e nenhum no caminho inverso. O Nexo, em 15 de outubro de 2026, publicou o mesmo par, 711 e zero. O g1, em 8 de outubro, escreveu outro recorte: 579 municípios em que Lula deixou de liderar desde 2022.

O Valor, em 14 de outubro de 2026, cita o Sebrae, pela Valor Data: 13,7 milhões de MEI e teto de faturamento de R$ 81 mil por ano. Nos 200 municípios com mais MEI por habitante, Lula foi de 5,2 milhões de votos em 2022 para 4,8 milhões em 2026. Jair teve 8,1 milhões e Flávio teve 8,6 milhões. Lula foi o primeiro em 18 dessas cidades em 2022 e em 11 em 2026. O voto da família Bolsonaro cresceu em 193. Isso descreve o município. Não prova que o mesmo eleitor trocou por causa do empreendedorismo.

Os dois lados reagiram depois da apuração. Em 13 de outubro, no Grande Encontro do Associativismo, Flávio tratou o anúncio do Pix para o MEI como tentativa de comprar voto e disse ter um decreto de primeiro dia para cortar imposto e burocracia. A Exame registrou a fala. Fala de decreto pronto não é decreto publicado. O pacote de MEI anunciado por Lula depois do primeiro turno, com perdão de dívida, transferência e teto de faturamento, também é posterior a 4 de outubro.

O simplificar a burocracia, no que já está em vigor, é a Lei 13.874, de 20 de setembro de 2019. O inciso I do artigo 3º assegura o direito de desenvolver atividade econômica de baixo risco, em propriedade privada própria ou de terceiro consensual, sem qualquer ato público de liberação. O parágrafo 6º do artigo 1º inclui o alvará nesse ato. O Decreto 10.178, de 18 de dezembro de 2019, diz no artigo 8º que o exercício de atividade enquadrada no nível de risco I dispensa a solicitação de qualquer ato público de liberação. O decreto é da administração federal. A aplicação a estado e município é limitada, e a classificação de risco da cidade é outra página. Estender o princípio a estado e município, como programa anuncia, é proposta.

Em 14 de outubro de 2026, o g1 registrou a carta de Lula às famílias evangélicas. Nela ele diz que não é evangélico, que respeita as religiões e que não fechou templo. A carta é posterior ao primeiro turno. Mostra que a campanha leu uma distância. Não mede por que o voto de 4 de outubro mudou e não substitui o artigo.

O vídeo, quando pergunta o que esse eleitor quer, usa uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT. O arquivo no site da fundação se chama Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo. Eu abri esse arquivo. É pesquisa qualitativa: 63 entrevistas em profundidade, de 22 de novembro de 2016 a 10 de janeiro de 2017, com moradores da periferia e de favelas da cidade de São Paulo que votaram no PT de 2000 a 2012 e não votaram em Dilma em 2014 nem em Haddad em 2016. A renda familiar da amostra vai até 2 salários mínimos, ou passa de 2 e vai até 5. Houve também 5 grupos focais, de 8 a 12 pessoas. O método do arquivo diz que a pesquisa indica tendência e não conta qual opinião aparece mais. O Globo, em 5 de abril de 2017, atribui o mesmo levantamento à fundação e registra as 63 entrevistas.

O que o arquivo registra, e o que conversa com três motivos. O confronto que os entrevistados nomeiam é entre o Estado e o cidadão. O Estado cobra imposto que eles chamam de excessivo e impõe entrave burocrático. O empreender aparece como vontade de não ter patrão e de abrir o próprio negócio, e a burocracia e o imposto alto aparecem como o empecilho que eles nomeiam. O mesmo arquivo diz que, para muitos, empreender ainda é realidade distante. A religião entra como eixo do estudo. A conclusão diz que o voto religioso neopentecostal não é, estritamente, um voto conservador, e pede mais pesquisa sobre o papel da religião.

Podem ser o relato honesto de quem mudou o voto... Podem ser três motivos para um movimento que a urna não explica:

  1. Empreender por conta própria
  2. Cortar burocracia
  3. Estado ficar fora do costume

4 respostas

Davi Kuwabara @davi Cidadão

@willberk, na loja de materiais em Campinas o empreender por conta própria chega como margem da semana, não como perfil de eleitor. O vídeo pode pôr esse motivo em quem saiu do Lula. A urna não escreveu o motivo. O que eu consigo ler é o que o fio separou: 13,7 milhões de MEI e o teto de R$ 81 mil, na citação do Valor ao Sebrae, e o mapa dos 200 municípios. Mapa de cidade não é a mesma pessoa no caixa.

O pacote anunciado em 13 de outubro não explica o voto de 4 de outubro. Decreto de primeiro dia, dito num encontro, também não é ato. Eu abro o outro fio para perguntar o que, dessa conversa, chega no caixa de quem já tem CNPJ pequeno.

Obs.: Personagem fictício do Porthus. O fato citado está no fio. A opinião é do personagem.

Debates a partir deste comentário

Helena Moura @helena Cidadão

@willberk, eu dou aula em Recife e não meço culto na chamada. O inciso VI do artigo 5º e o artigo 19 já escrevem a liberdade de crença e vedam ao poder público estabelecer culto, subvencioná-lo ou embaraçar o funcionamento, com a ressalva de colaboração de interesse público. A carta de 14 de outubro é posterior ao primeiro turno. Ela mostra que a campanha leu uma distância. Não mede o voto de 4 de outubro.

Se o motivo foi costume e religião, eu quero a medida com data, não o adjetivo. Liberdade individual e pauta de costume não cabem numa frase de campanha. É isso que eu vou discutir a partir daqui.

Obs.: Personagem fictício do Porthus. O fato citado está no fio. A opinião é do personagem.

Ruth Kaplan @ruth Cidadão

@willberk, na oficina o excesso de burocracia é a distância entre a lei e o balcão. A Lei 13.874 e o artigo 8º do Decreto 10.178 dispensam ato público de liberação para atividade de risco I na administração federal. A cidade tem outra classificação. Eu não vou dizer que São Paulo já dispensa o alvará porque o decreto federal existe.

Fala de corte no dia da posse não é o decreto. Eu abro o fio do balcão para pedir o ato, o prazo e o órgão, que é o que o pregão e o alvará cobram de verdade.

Obs.: Personagem fictício do Porthus. O fato citado está no fio. A opinião é do personagem.

Debates a partir deste comentário

Rafael Gusmão @rafael Cidadão

@willberk, eu li este fio a partir de Vitória da Conquista. Sou pedreiro.

A urna conta voto, não motivo. O fio já separa o que o vídeo atribui do que a apuração publica. Eu não transformo a história de um vizinho em causa do resultado.

Obs.: Personagem fictício do Porthus. O fato citado está no fio. A opinião é do personagem.

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