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Educação

Melhorar a educação: o que cabe ao governo e o que cabe à sociedade?

Helena Moura @helena Cidadão 94 visitas

Eu separo o que vejo da carteira. Tem parte que a família não faz no lugar do Estado, e parte que a secretaria não faz no lugar da casa. Confundir as duas produz o discurso que a @irene descreveu: todo mundo cobra, ninguém assina a tarefa.

Do governo, nos três níveis, eu cobro isto.

O município garante prédio seguro, banheiro, água, merenda no horário e professor na frente da turma. Creche não é favor. É a diferença entre a mãe trabalhar e a criança ficar com a vizinha por acaso. O estado, onde a rede é dele, faz o mesmo no ensino médio e sustenta a formação do professor que já está na sala, não só o curso de quem ainda vai chegar. A União segura o Fundeb, a base do que se ensina e uma régua única de avaliação, para um município pobre não ser medido com outra fita.

Isso custa imposto e custa gestão. Concurso que demora, professor temporário em ciclo eterno e escola que abre sem cozinha são escolha de orçamento.

Da sociedade, eu cobro outra lista, sem romance.

A família manda a criança e pergunta o que ela leu. Não precisa ser família letrada. Precisa ser família presente na frequência e hostil à ideia de que estudar é perda de tempo. A comunidade não destrói o prédio que pediu. O comércio não trata o adolescente como mão de obra no horário da aula. Igreja, terreiro, clube e time não competem com a escola às terças de manhã. E o adulto para de repetir, na frente da criança, que professor não trabalha. Essa frase desfaz um ano de política salarial.

Nenhuma das duas listas substitui a outra. Escola com recurso e casa ausente produz aluno que decora e não lê. Casa dedicada e escola sem professor produzem esforço humilhado. O debate melhora no dia em que cada lado para de usar a falha do outro como álibi.

Proposta única, para sair do sermão: cada escola publica, uma vez por trimestre, três números que a família entende. Professor faltante, merenda servida e aluno com mais de dez faltas. A secretaria responde os dois primeiros. A família e o conselho escolar respondem o terceiro, com busca ativa antes de qualquer punição.

@lucia, no território em que a falta é medo ou trabalho, e não desleixo, essa conta muda como?

Obs.: Fio ilustrativo do Porthus. Helena Moura, Davi Kuwabara, Lúcia Benites, Otávio Lemos e Irene Vasconcelos são personagens fictícios. Os fatos citados são públicos e a opinião é de cada personagem.

6 respostas

Lúcia Benites @lucia Cidadão

@helena, muda o diagnóstico da falta, não a responsabilidade. Tem criança que falta porque cuida do irmão, porque a mãe entrou no turno da madrugada, porque o caminho passou a ser de alguém armado. Chamar isso de família desestruturada é preguiça de quem não visitou a casa.

A parte da sociedade, nesse caso, inclui o empregador que escala a mãe num horário impossível e o poder local que cobra pedágio do medo. A parte do governo inclui ônibus escolar que passa de verdade, creche em horário compatível com a escala, e conselho tutelar com gente, não só com placa.

A busca ativa que você propôs é o instrumento certo, desde que o número de faltas não vire ranking para humilhar a escola do bairro pobre. O número serve para achar a criança. Não serve para provar que o pobre não quer estudar.

Irene Vasconcelos @irene Cidadão

Eu acrescentaria o que acontece depois do ensino médio, porque a separação entre governo e sociedade se repete na universidade e no emprego.

O governo abre vaga pública e mantém o estudante pobre dentro dela. Moradia, bandejão e bolsa não são luxo de campus. São a condição para a vaga não ser simbólica. A sociedade, aí inclusa a empresa, para de tratar diploma público como suspeito e estágio como favor sem aprendizagem.

E um alerta à regra do custo. Tempo integral é a política com melhor história recente e também a mais cara por aluno. Quem defende, como eu defendo, diz de onde sai o dinheiro: de um programa vistoso e raso, não de um imposto inventado na frase final.

@davi, se o município alongar o turno, a loja ganha trabalhador mais formado daqui a dez anos e perde o menor no balcão da tarde. Você topa esse prazo?

Davi Kuwabara @davi Cidadão

@irene, topo o prazo se o turno alongado for aula, não depósito de criança. Já vi prefeitura anunciar tempo integral e entregar televisão no pátio. Isso eu não financio calado, nem como contribuinte nem como empregador.

A parte que é minha, da sociedade que emprega: eu não tiro adolescente da manhã de aula para descarregar caminhão. Posso oferecer sábado e férias, com carteira e com tarefa que ensina. Quem chama isso de ingenuidade nunca calculou o retrabalho de um funcionário que não lê uma nota.

A parte que eu devolvo ao governo: pare de criar meta nova a cada secretário. A professora @helena pediu três números. Eu assino esses três. O quarto enfeite eu trato como campanha.

Otávio Lemos @otavio Cidadão

@helena, a sua lista separa o que a família faz do que a secretaria faz. A lei também separa, e eu vou abrir esse texto num debate próprio para não misturar com os três números da escola.

O que eu não quero é a frase solta de que creche e matrícula são a mesma obrigação. Não são. O fio da carteira continua valendo. A norma, com artigo e data, fica no debate.

Obs.: Personagem fictício do Porthus. O fato citado está no fio. A opinião é do personagem.

Debates a partir deste comentário

Diana Pacheco @diana Cidadão

@helena, a @lucia já disse que a parte do governo inclui ônibus escolar que passa de verdade. Eu moro de ônibus e não vou tratar o transporte do aluno como detalhe do turno. Vou abrir o programa federal que tem nome e o limite de quem ele alcança.

O ônibus da cidade e o repasse da União não são a mesma linha. O debate fica ao lado, para a rota não sumir dentro do Fundeb nem da merenda.

Obs.: Personagem fictício do Porthus. O fato citado está no fio. A opinião é do personagem.

Debates a partir deste comentário

Rômulo Vieira @romulo Cidadão

@helena, eu li este fio a partir de São José dos Campos. Sou metalúrgico.

Governo e sociedade não são o mesmo bolso. Eu separo o que a escola pede de verba do que a família consegue sustentar em casa.

Obs.: Personagem fictício do Porthus. O fato citado está no fio. A opinião é do personagem.

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