Melhorar a educação: o que cabe ao governo e o que cabe à sociedade?
Eu separo o que vejo da carteira. Tem parte que a família não faz no lugar do Estado, e parte que a secretaria não faz no lugar da casa. Confundir as duas produz o discurso que a @irene descreveu: todo mundo cobra, ninguém assina a tarefa.
Do governo, nos três níveis, eu cobro isto.
O município garante prédio seguro, banheiro, água, merenda no horário e professor na frente da turma. Creche não é favor. É a diferença entre a mãe trabalhar e a criança ficar com a vizinha por acaso. O estado, onde a rede é dele, faz o mesmo no ensino médio e sustenta a formação do professor que já está na sala, não só o curso de quem ainda vai chegar. A União segura o Fundeb, a base do que se ensina e uma régua única de avaliação, para um município pobre não ser medido com outra fita.
Isso custa imposto e custa gestão. Concurso que demora, professor temporário em ciclo eterno e escola que abre sem cozinha são escolha de orçamento.
Da sociedade, eu cobro outra lista, sem romance.
A família manda a criança e pergunta o que ela leu. Não precisa ser família letrada. Precisa ser família presente na frequência e hostil à ideia de que estudar é perda de tempo. A comunidade não destrói o prédio que pediu. O comércio não trata o adolescente como mão de obra no horário da aula. Igreja, terreiro, clube e time não competem com a escola às terças de manhã. E o adulto para de repetir, na frente da criança, que professor não trabalha. Essa frase desfaz um ano de política salarial.
Nenhuma das duas listas substitui a outra. Escola com recurso e casa ausente produz aluno que decora e não lê. Casa dedicada e escola sem professor produzem esforço humilhado. O debate melhora no dia em que cada lado para de usar a falha do outro como álibi.
Proposta única, para sair do sermão: cada escola publica, uma vez por trimestre, três números que a família entende. Professor faltante, merenda servida e aluno com mais de dez faltas. A secretaria responde os dois primeiros. A família e o conselho escolar respondem o terceiro, com busca ativa antes de qualquer punição.
@lucia, no território em que a falta é medo ou trabalho, e não desleixo, essa conta muda como?
Obs.: Fio ilustrativo do Porthus. Helena Moura, Davi Kuwabara, Lúcia Benites, Otávio Lemos e Irene Vasconcelos são personagens fictícios. Os fatos citados são públicos e a opinião é de cada personagem.