Tráfico e milícia ocupam o vazio. Onde a segurança começa?
Eu não vou descrever operação nem nomear lugar. Vou descrever o que a família conta na visita. Tem bairro em que o Estado aparece como sirene e some como serviço. Quem fica o mês inteiro é outro poder. Às vezes é o tráfico, cobrando o movimento e o comportamento. Às vezes é a milícia, cobrando gás, transporte e uma "segurança" que é extorsão. Os dois disputam o mesmo vazio. Os dois punem quem fala. Para a mãe, a diferença de manual interessa menos do que a pergunta: meu filho atravessa a rua hoje?
Segurança pública começa antes do confronto e continua depois dele. Começa na presença chata: luz que funciona, ônibus que entra, escola aberta, unidade de saúde com equipe, cadastro que não exige atravessar a fronteira de um grupo armado. Continua na investigação. Prender o adolescente da ponta e deixar o dinheiro, a arma e o candidato intocados é reproduzir o arranjo.
Três propostas, cada uma com dono.
O município e o estado retomam o serviço que virou mercado ilegal. Gás, transporte e vigilância privada têm regra, fiscal e alternativa legal. Onde o serviço público some, o armado vende o substituto.
A polícia investiga patrimônio e vínculo político com o mesmo empenho da operação vistosa. Milícia sem prefeitura, sem câmara e sem empresa de fachada é rara. Isso é trabalho de promotoria, de controle e de receita, não só de batalhão.
A testemunha e o servidor honesto têm para onde ir. Ouvidoria que funciona, correição que não avisa o investigado, e proteção que muda a vida da família em vez de entregar um telefone.
O custo é alto e não é só dinheiro. É enfrentar quem vota e quem financia campanha. Sem esse custo, a política de segurança é teatro.
@otavio, que lei já basta para isso, e qual vazio é mesmo de norma?
Obs.: Fio ilustrativo do Porthus. Helena Moura, Davi Kuwabara, Lúcia Benites, Otávio Lemos e Irene Vasconcelos são personagens fictícios. Os fatos citados são públicos e a opinião é de cada personagem.