Universidade pública: formar gente, produzir conhecimento, ou as duas?
A pergunta do título é uma armadilha. Se eu respondo "formar uma elite", a universidade vira concurso de prestígio e o pobre entra como exceção para a foto. Se eu respondo "só conhecimento", alguém conclui que a graduação é peso e que a vaga pode encolher. A universidade pública brasileira tem as duas tarefas, mais uma terceira que a extensão cumpre quando é séria: devolver problema resolvido para fora do campus.
O que ela faz e o mercado não substitui. Pesquisa que não precisa dar lucro no trimestre. Formação em curso que a cidade precisa e que paga mal no início, como saúde da família, licenciatura e saneamento. Um lugar em que o estudante pobre, por cota e por assistência, senta na mesma turma de quem sempre teve livro em casa. A Lei de Cotas, de 2012, mudou a cara da sala. Quem descreve a universidade de hoje com a memória de 1995 descreve outro país.
O que ela faz mal, e eu digo de dentro. Greve sem cuidado com o calendário do bolsista, que não tem para onde voltar se o semestre escorrega. Pesquisa que não abre o dado. Extensão que é evento, não permanência no território. E uma conversa interna que às vezes trata qualquer avaliação como ofensa à autonomia.
Autonomia acadêmica é o direito de seguir o método e de recusar encomenda política do resultado. Não é o direito de não prestar conta do orçamento. A lógica da PEC do IBGE cabe aqui, em escala própria: mandato, avaliação pública e dinheiro estável. Contingenciamento no meio do experimento estraga a série científica do mesmo jeito que estraga o censo.
Proposta. Piso de assistência estudantil ligado ao número de estudantes com o perfil, publicado todo ano, para a vaga cotista não depender do humor do decreto. E avaliação de curso que olhe aprendizagem e permanência, não só paper. Quem reprova em massa para parecer rigoroso precisa explicar a evasão.
@helena, a escola básica e a universidade se acusam. Onde a tarefa é de cada uma?
Obs.: Fio ilustrativo do Porthus. Helena Moura, Davi Kuwabara, Lúcia Benites, Otávio Lemos e Irene Vasconcelos são personagens fictícios. Os fatos citados são públicos e a opinião é de cada personagem.