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Educação

Universidade pública: formar gente, produzir conhecimento, ou as duas?

Irene Vasconcelos @irene Cidadão 74 visitas

A pergunta do título é uma armadilha. Se eu respondo "formar uma elite", a universidade vira concurso de prestígio e o pobre entra como exceção para a foto. Se eu respondo "só conhecimento", alguém conclui que a graduação é peso e que a vaga pode encolher. A universidade pública brasileira tem as duas tarefas, mais uma terceira que a extensão cumpre quando é séria: devolver problema resolvido para fora do campus.

O que ela faz e o mercado não substitui. Pesquisa que não precisa dar lucro no trimestre. Formação em curso que a cidade precisa e que paga mal no início, como saúde da família, licenciatura e saneamento. Um lugar em que o estudante pobre, por cota e por assistência, senta na mesma turma de quem sempre teve livro em casa. A Lei de Cotas, de 2012, mudou a cara da sala. Quem descreve a universidade de hoje com a memória de 1995 descreve outro país.

O que ela faz mal, e eu digo de dentro. Greve sem cuidado com o calendário do bolsista, que não tem para onde voltar se o semestre escorrega. Pesquisa que não abre o dado. Extensão que é evento, não permanência no território. E uma conversa interna que às vezes trata qualquer avaliação como ofensa à autonomia.

Autonomia acadêmica é o direito de seguir o método e de recusar encomenda política do resultado. Não é o direito de não prestar conta do orçamento. A lógica da PEC do IBGE cabe aqui, em escala própria: mandato, avaliação pública e dinheiro estável. Contingenciamento no meio do experimento estraga a série científica do mesmo jeito que estraga o censo.

Proposta. Piso de assistência estudantil ligado ao número de estudantes com o perfil, publicado todo ano, para a vaga cotista não depender do humor do decreto. E avaliação de curso que olhe aprendizagem e permanência, não só paper. Quem reprova em massa para parecer rigoroso precisa explicar a evasão.

@helena, a escola básica e a universidade se acusam. Onde a tarefa é de cada uma?

Obs.: Fio ilustrativo do Porthus. Helena Moura, Davi Kuwabara, Lúcia Benites, Otávio Lemos e Irene Vasconcelos são personagens fictícios. Os fatos citados são públicos e a opinião é de cada personagem.

3 respostas

Helena Moura @helena Cidadão

@irene, a universidade diz que a escola entrega aluno que não lê texto longo. Parte dessa queixa procede, e é minha. Parte é a universidade cobrando um estudante ideal que a rede real, com aula vaga e turno curto, não produz em massa. As duas frases são verdadeiras. Usar uma para absolver a outra é o álibi de sempre.

A parte da universidade: formar professor para a escola que existe. Estágio dentro da rede pública, com orientação de verdade, não visita de uma manhã. Licenciatura que ensina a alfabetizar e a lidar com turma cheia.

A parte da escola: parar de tratar a universidade como planeta de quem passou. O aluno pobre precisa ouvir, no terceiro ano, que a vaga pública também é dele, com prazo de inscrição e com alguém que olhe o formulário. Orientação nenhuma é uma política de exclusão barata.

Otávio Lemos @otavio Cidadão

Eu olho a universidade como capacidade de Estado. O Inep mede a educação básica. Capes e CNPq sustentam a pós-graduação. Quando essas casas entram na briga do ciclo eleitoral, a série de avaliação e a bolsa de pesquisa viram moeda. Autonomia, de novo, não é isolamento. É regra de nomeação e orçamento que não zera a pesquisa no ajuste de agosto.

Um indicador simples. Em cinco anos: a parcela de formados em licenciatura que estão na rede pública dois anos depois, e a produção científica com dados abertos. Se a universidade só melhorar num ranking e a rede continuar sem professor, o ranking não mediu a missão.

Davi Kuwabara @davi Cidadão

Eu contrato gente que sabe fazer conta, ler contrato e aparecer no horário. Diploma ajuda a triar. Não substitui a semana de experiência. A universidade pública, quando entrega bem, manda um profissional que entende o porquê, não só o botão. Isso vale mais do que a marca da camisa.

O que eu peço, sem querer transformar campus em departamento de pessoal da loja. Curso com estágio em empresa pequena, não só em multinacional e em órgão. A pequena é onde está a maior parte do emprego. E extensão que resolva problema chato de cidade: perda de água, fila de posto, nota fiscal que o comerciante não entende.

Conhecimento que não atravessa o muro eu respeito como ciência. Não uso como único argumento do imposto. O custo de manter a universidade pública eu pago. O custo de mantê-la opaca, não aceito calado.

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