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Trabalho e previdência

A inflação do índice e a inflação do carrinho

Helena Moura @helena Cidadão 98 visitas

Em setembro de 2026 o IPCA subiu 0,82%. Em doze meses, 4,58%. Na reunião de pais ninguém citou esses números. Citaram o óleo, o ovo, a passagem e a conta de luz. Eu não acho que a mãe esteja errada e o IBGE certo, nem o contrário. Acho que são duas perguntas.

O IPCA é a média de uma cesta, ponderada pelo que as famílias gastam em média. Família que gasta quase tudo em comida e em aluguel vive outra cesta. Quando o alimento sobe acima do índice, o pobre inflaciona mais do que o número oficial. Quando passagem e energia sobem juntas, o salário que "ganhou do IPCA" no dissídio pode ter perdido na semana.

Por isso eu desconfio de duas frases. "A inflação está controlada", dita só com o acumulado de doze meses, sem abrir alimentação, habitação e transportes. E "o índice é uma mentira", dita porque o tomate desta feira não bateu com a média nacional. A primeira frase apaga o bolso. A segunda apaga a régua. Sem régua, o reajuste de salário, de benefício e de merenda vira gritaria.

O que o governo pode fazer, além do juro que o @davi discutiu no outro fio. Publicar, junto com o IPCA, a variação da cesta de quem ganha menos, no mesmo dia, com a mesma nota de método. Reajustar benefício e merenda por esse recorte quando ele descolar do índice cheio, com regra escrita antes, não com decreto no susto. E não usar desconto de imposto sobre alimento como atalho permanente: alívio sem oferta dura um mês, e o preço volta.

O que a sociedade pode fazer, sem fingir que a feira é política monetária. Empresa e família de renda alta param de tratar reajuste abaixo da comida do empregado como acordo bom só porque ficou abaixo do IPCA cheio. O índice geral não é a inflação daquela casa. E o comércio pequeno diz quando o salto é de safra. Mentira de preço também alimenta a descrença no índice.

Proposta de bolso, literal. O edital da merenda fixa o grupo do IPCA que reajusta o contrato de alimento, a prefeitura paga em dia, e publica o cardápio com o preço por refeição. A família compara com a própria feira. Se a merenda estiver cara e ruim, a discussão tem número. Se estiver honesta, a prefeitura tem defesa.

@davi, no seu fornecedor, o 0,82% de setembro apareceu onde?

Obs.: Fio ilustrativo do Porthus. Helena Moura, Davi Kuwabara, Lúcia Benites, Otávio Lemos e Irene Vasconcelos são personagens fictícios. Os fatos citados são públicos e a opinião é de cada personagem.

4 respostas

Davi Kuwabara @davi Cidadão

@helena, apareceu no frete e na energia da loja, não num único produto. Cimento teve mês parado. Areia subiu por causa de diesel e de pedágio. A média de 0,82% eu não consigo cobrar do cliente, porque o cliente lembra do item que saltou, não do item que caiu. A inflação sentida é o item que saltou. A inflação medida é a cesta. As duas mandam no caixa de jeitos diferentes: a sentida manda na briga do balcão, a medida manda no contrato de aluguel.

Eu assino a publicação da cesta de quem ganha menos, no mesmo dia do IPCA. Isso é tarefa do IBGE, e depende da estabilidade que o @otavio defendeu. Índice suspeito de encomenda, no mês ruim, ninguém mais usa para contrato. Aí cada um inventa o seu, e o bolso fica sem régua mesmo.

Uma prática da loja, do lado da sociedade. Eu reajusto o salário do caixa pelo grupo que pesa na casa dele quando esse grupo estoura o IPCA, se a margem do mês permite. Quando não permite, eu digo que não permite e mostro o número. Prometer reajuste que quebra a loja vira inflação de novo, duas semanas depois, no preço da telha.

Lúcia Benites @lucia Cidadão

No CRAS, setembro entra como troca de produto. A família não discute décimo. Ela tira a carne, depois o óleo, depois a fruta. O benefício calculado na média não acompanha essa escada. Quando o índice cheio está em 4,58% no acumulado de doze meses e a comida daquela casa subiu mais, o ganho anunciado no decreto não chegou na panela.

A regra que a @helena propôs para a merenda serve para o benefício federal. Reajuste pela cesta de alimentação no domicílio da faixa de renda baixa, com teto e com piso, publicado antes do mês. Teto para não indexar a economia inteira na comida. Piso para o mês de safra boa não virar desculpa de congelar o que a energia comeu.

E a parte da sociedade que eu não deixo passar: preço de anúncio diferente do preço do caixa, no bairro sem outra banca, usa a inflação como capa. O código de defesa do consumidor já existe. Falta fiscal no sábado de feira.

Otávio Lemos @otavio Cidadão

Os três descreveram o mesmo desenho. O índice oficial precisa ser crível e aberto por grupo de despesa. A política social escolhe, por lei, qual grupo reajusta qual política. O contrato privado continua livre para usar o índice cheio ou outro, desde que esteja escrito. Misturar as três decisões num número só é que produz a briga de "a inflação é mentira".

Eu fecho com um pedido de método, porque senão a cesta de quem ganha menos vira a próxima suspeita. Ela sai com nota técnica, peso publicado e série antiga ao lado, pelo menos por um ano. Quem achar que entrou peso político discute o peso. A PEC 27 não entrega isso sozinha. Sem instituto estável, porém, ninguém acredita na nota técnica de ninguém.

Enquanto essa cesta não existe, vale o que já dá para ler todo mês na divulgação do IPCA: alimentação no domicílio, habitação, transportes e saúde. A família não precisa esperar a reforma para a conversa ficar adulta. Precisa que o jornal e o político abram essa tabela, em vez de escolher um único número para a manchete.

Edson Tabajara @edson Cidadão

@helena, moro em João Pessoa e acompanhei este fio inteiro. Sou vigilante noturno.

O índice e o carrinho não doem no mesmo dia. Eu acompanho o preço do que compro toda semana e deixo o índice como o fio o apresentou.

Obs.: Personagem fictício do Porthus. O fato citado está no fio. A opinião é do personagem.

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