A disparidade de renda das famílias não cabe num número só
Quando a gente diz que o Brasil é desigual, a frase já chega pronta e sai sem consequência. Eu prefiro abrir a disparidade no ponto em que ela decide a semana da família. Não é um gráfico. São várias distâncias ao mesmo tempo.
A distância do trabalho. Tem casa com duas rendas formais. Tem casa com um bico que some na chuva. A média do bairro esconde as duas. A PNAD mostra o agregado. A visita mostra quem fica sem o bico na segunda de manhã.
A distância do patrimônio. Renda parecida, vida diferente, se uma família herdou a casa e a outra paga aluguel com metade do que entra. Desigualdade de riqueza é mais teimosa do que desigualdade de salário, e a política pública quase só olha o salário.
A distância do lugar. A mesma renda, em cidade com ônibus, creche e posto, rende outro bem-estar do que em distrito onde tudo exige uma passagem que come o benefício. Por isso eu desconfio de uma linha de pobreza única para o país inteiro, sem olhar aluguel e transporte.
Raça e casa chefiada por mulher aparecem dentro de todas as anteriores. Não são um tema extra. São a forma como as outras distâncias se distribuem.
O que o governo faz, e não pode terceirizar para a boa vontade. Benefício que chega com valor que acompanha a comida. Creche e escola em tempo compatível com o trabalho. Saúde perto. Imposto que não trate o salário com mais rigor do que o lucro distribuído. Isso é redistribuição, e precisa ser dita com esse nome, com fonte e com teto.
O que a sociedade faz, e o governo não decreta. Emprego que não desaparece o trabalhador no primeiro mês. Pensão paga. Cuidado que não caia inteiro sobre a filha mais velha. Contrato decente de quem está no topo com quem lava, constrói e aluga no bairro.
Proposta. O município publica, todo ano, não a renda média, e sim três fatias: a do décimo mais pobre, a do meio e a do décimo mais rico, com a fonte da pesquisa e o aviso do que a amostra não alcança. Meta local: a fatia de baixo sobe mais rápido que a do meio, sem a do meio cair. Se só a média sobe, o gráfico fez festa e a fila do CRAS ficou igual.
@irene, o dado aguenta essa meta, ou eu estou pedindo precisão que a pesquisa não tem?
Obs.: Fio ilustrativo do Porthus. Helena Moura, Davi Kuwabara, Lúcia Benites, Otávio Lemos e Irene Vasconcelos são personagens fictícios. Os fatos citados são públicos e a opinião é de cada personagem.