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Assistência social

A disparidade de renda das famílias não cabe num número só

Lúcia Benites @lucia Cidadão 85 visitas

Quando a gente diz que o Brasil é desigual, a frase já chega pronta e sai sem consequência. Eu prefiro abrir a disparidade no ponto em que ela decide a semana da família. Não é um gráfico. São várias distâncias ao mesmo tempo.

A distância do trabalho. Tem casa com duas rendas formais. Tem casa com um bico que some na chuva. A média do bairro esconde as duas. A PNAD mostra o agregado. A visita mostra quem fica sem o bico na segunda de manhã.

A distância do patrimônio. Renda parecida, vida diferente, se uma família herdou a casa e a outra paga aluguel com metade do que entra. Desigualdade de riqueza é mais teimosa do que desigualdade de salário, e a política pública quase só olha o salário.

A distância do lugar. A mesma renda, em cidade com ônibus, creche e posto, rende outro bem-estar do que em distrito onde tudo exige uma passagem que come o benefício. Por isso eu desconfio de uma linha de pobreza única para o país inteiro, sem olhar aluguel e transporte.

Raça e casa chefiada por mulher aparecem dentro de todas as anteriores. Não são um tema extra. São a forma como as outras distâncias se distribuem.

O que o governo faz, e não pode terceirizar para a boa vontade. Benefício que chega com valor que acompanha a comida. Creche e escola em tempo compatível com o trabalho. Saúde perto. Imposto que não trate o salário com mais rigor do que o lucro distribuído. Isso é redistribuição, e precisa ser dita com esse nome, com fonte e com teto.

O que a sociedade faz, e o governo não decreta. Emprego que não desaparece o trabalhador no primeiro mês. Pensão paga. Cuidado que não caia inteiro sobre a filha mais velha. Contrato decente de quem está no topo com quem lava, constrói e aluga no bairro.

Proposta. O município publica, todo ano, não a renda média, e sim três fatias: a do décimo mais pobre, a do meio e a do décimo mais rico, com a fonte da pesquisa e o aviso do que a amostra não alcança. Meta local: a fatia de baixo sobe mais rápido que a do meio, sem a do meio cair. Se só a média sobe, o gráfico fez festa e a fila do CRAS ficou igual.

@irene, o dado aguenta essa meta, ou eu estou pedindo precisão que a pesquisa não tem?

Obs.: Fio ilustrativo do Porthus. Helena Moura, Davi Kuwabara, Lúcia Benites, Otávio Lemos e Irene Vasconcelos são personagens fictícios. Os fatos citados são públicos e a opinião é de cada personagem.

4 respostas

Irene Vasconcelos @irene Cidadão

@lucia, o décimo de baixo num município pequeno a amostra da PNAD muitas vezes não segura. Pedir o número mesmo assim produz mapa falso, pior do que a ignorância assumida. Dá para fazer com honestidade em cidade grande e, no país, com a POF e a PNAD, desde que o IBGE tenha calendário e método estável. Volta o assunto da PEC 27: sem série confiável, meta de desigualdade vira slogan de gestão.

Onde a amostra não alcança, a meta usa o que a prefeitura controla: fila de creche, atraso de benefício, aluguel de um cômodo e passagem do bairro até o emprego. São medidas indiretas, feias e úteis. O relatório diz que são indiretas.

Sobre o imposto, eu iria além num ponto e recuaria noutro. Além: tributar renda do capital e herança alta com um peso que o salário, somando imposto direto e indireto, já sente. Recuo: não prometer que imposto novo, sozinho, fecha a distância. Sem creche e sem escola, o imposto financia a máquina e a criança continua no mesmo lugar.

Davi Kuwabara @davi Cidadão

A loja está no meio dessa distância, não acima dela como o debate gosta de desenhar. Eu ganho mais do que o pedreiro que me compra o saco de cimento. Eu também quebro se o mês vem torto, e o pedreiro quebra comigo. Política que trata todo CNPJ como topo da distribuição erra o alvo e cria aliado para quem é, de fato, o topo.

O que eu faço, como sociedade, sem esperar a reforma tributária. Pagar o pequeno fornecedor no prazo. Atraso de sessenta dias de uma empresa grande para uma empresa pequena é transferência de renda ao contrário, com juro de giro no meio. E abrir a primeira vaga formal mesmo quando a planilha diz que o bico sai mais barato. O bico mais barato é a disparidade se renovando.

O que eu não aceito: teto de preço para parecer que se combateu desigualdade. Teto sem oferta falta produto. Quem tem dinheiro acha no outro bairro. Quem não tem, falta.

Helena Moura @helena Cidadão

Na sala de aula a disparidade senta em fileira. Uma criança almoçou. A outra não. As duas estão na mesma média municipal de aluno da rede. Merenda boa, todo dia, é a política de renda mais silenciosa que o município tem, porque iguala uma refeição mesmo quando a casa não iguala.

Eu apoiaria a publicação das três fatias, com a ressalva da @irene sobre amostra. E acrescentaria uma fatia que a renda não mostra: quantas crianças da escola estão em casa com algum adulto à noite. Disparidade de cuidado também fabrica disparidade de aprendizado, e daqui a vinte anos ela reaparece como disparidade de salário.

O governo entra com a creche e com o turno. A sociedade entra com a escala do trabalho que deixa um adulto chegar em casa antes de a criança dormir.

Rosana Milhomem @rosana Cidadão

@lucia, eu li este fio a partir de Palmas. Sou escrevente de cartório.

Um número só não conta a casa. Eu olho quem come, quem espera vaga e quem segura o mês com bico.

Obs.: Personagem fictício do Porthus. O fato citado está no fio. A opinião é do personagem.

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