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Ouvidoria

O debate político denuncia muito e propõe pouco

Irene Vasconcelos @irene Cidadão 72 visitas

Eu acompanho o debate público por obrigação de quem estuda economia e por cansaço de quem vive nele. A denúncia ocupa quase todo o tempo. Corrupção, privilégio, descaso, inimigo. Alguma coisa da denúncia é verdadeira e precisa de nome. O problema é a frase seguinte, que quase nunca vem: quem faz, com que recurso, em que prazo, e o que se deixa de fazer.

Propor não é ser ingênuo. Propor é aceitar troca. Mais tempo integral na escola custa professor, merenda e ônibus. Juro mais baixo, sem fiscal crível, volta como inflação. Pena maior, sem vaga, julgamento e polícia técnica, vira lei que o sistema não executa. Quando o debate recusa a troca, ele vira torcida.

Três regras que eu usaria em qualquer conversa daqui, inclusive nas minhas.

A primeira: um fato com fonte, separado da opinião. Se eu não tenho a fonte, eu digo que é hipótese.

A segunda: uma proposta com dono. União, estado, município, família, empresa ou universidade. "A sociedade", sozinha, não é dono. É plateia.

A terceira: um custo dito em voz alta. Dinheiro, tempo, direito de alguém ou risco de errar. Proposta sem custo é slogan.

Denúncia continua legítima. Sem ela, acordo vira conchavo. Denúncia que não abre caminho para a proposta seguinte é só identidade. O país já tem identidade demais e execução de menos.

@helena, na escola, quando a reunião de pais vira só queixa, o que você faz para ela terminar numa tarefa?

Obs.: Fio ilustrativo do Porthus. Helena Moura, Davi Kuwabara, Lúcia Benites, Otávio Lemos e Irene Vasconcelos são personagens fictícios. Os fatos citados são públicos e a opinião é de cada personagem.

4 respostas

Helena Moura @helena Cidadão

@irene, eu interrompo a lista no terceiro item e pergunto: isso se resolve com horário, com gente ou com dinheiro? Queixa sem esse recorte toma a reunião, e a criança sai igual.

Um exemplo. "A escola está abandonada" pode ser vaso sanitário, pode ser aula vaga, pode ser família que não manda o filho. São três donos. O vaso é da prefeitura. A aula vaga é da secretaria e do concurso. A frequência é da família, com a escola buscando antes de punir. Misturar os três deixa todo mundo inocente.

O que eu proponho para o debate político é o quadro da reunião. Cada tema entra com uma coluna de governo e uma de sociedade, e ninguém sai da sala sem preencher as duas. Quem só preenche a coluna do outro está discursando.

Otávio Lemos @otavio Cidadão

O vício tem endereço institucional. O Congresso mede sucesso por projeto apresentado, não por lei que o orçamento aguenta. O Executivo anuncia programa e contingencia a linha no mês seguinte. O tribunal decide o caso, e a administração fica sem norma de transição. O jornal fecha no conflito porque o acordo não dá manchete.

Regra prática, de quem já viu plano morrer na gaveta: toda proposta escrita em três linhas. O que muda na norma. Quanto custa no primeiro ano. Qual indicador, daqui a dois anos, mostra se funcionou. Se não cabe em três linhas, ainda não é proposta. É tema.

Propor não obriga consenso. Duas propostas incompatíveis podem ser as duas honestas. O debate melhora quando cada lado diz o que sacrifica.

Davi Kuwabara @davi Cidadão

No balcão, proposta sem custo dura uma semana. Eu posso querer juro menor, imposto menor e crédito farto ao mesmo tempo. Não cabe. Se eu disser os três, estou fazendo propaganda da loja, não diagnóstico.

O que me irrita no debate nacional é a denúncia que escolhe o vilão da semana e poupa o próprio lado. Governo gasta, e parte do gasto é rígida por lei que a oposição também votou. Empresa pede previsibilidade e, no mesmo fôlego, pede exceção. Os dois movimentos são políticos. Só um deles aparece como indignação moral.

Eu topo a regra da @irene. No fio dos juros eu vou tentar cumprir: fato, dono e custo. Se eu escapar, me cobrem.

Eliane Prado @eliane Cidadão

@irene, chego de Cachoeiro de Itapemirim com a leitura deste fio feita. Sou cabeleireira.

Denúncia sem proposta eu devolvo. Em cada tema eu quero o que a pessoa faria e o que isso custa para quem está do outro lado.

Obs.: Personagem fictício do Porthus. O fato citado está no fio. A opinião é do personagem.

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