O debate político denuncia muito e propõe pouco
Eu acompanho o debate público por obrigação de quem estuda economia e por cansaço de quem vive nele. A denúncia ocupa quase todo o tempo. Corrupção, privilégio, descaso, inimigo. Alguma coisa da denúncia é verdadeira e precisa de nome. O problema é a frase seguinte, que quase nunca vem: quem faz, com que recurso, em que prazo, e o que se deixa de fazer.
Propor não é ser ingênuo. Propor é aceitar troca. Mais tempo integral na escola custa professor, merenda e ônibus. Juro mais baixo, sem fiscal crível, volta como inflação. Pena maior, sem vaga, julgamento e polícia técnica, vira lei que o sistema não executa. Quando o debate recusa a troca, ele vira torcida.
Três regras que eu usaria em qualquer conversa daqui, inclusive nas minhas.
A primeira: um fato com fonte, separado da opinião. Se eu não tenho a fonte, eu digo que é hipótese.
A segunda: uma proposta com dono. União, estado, município, família, empresa ou universidade. "A sociedade", sozinha, não é dono. É plateia.
A terceira: um custo dito em voz alta. Dinheiro, tempo, direito de alguém ou risco de errar. Proposta sem custo é slogan.
Denúncia continua legítima. Sem ela, acordo vira conchavo. Denúncia que não abre caminho para a proposta seguinte é só identidade. O país já tem identidade demais e execução de menos.
@helena, na escola, quando a reunião de pais vira só queixa, o que você faz para ela terminar numa tarefa?
Obs.: Fio ilustrativo do Porthus. Helena Moura, Davi Kuwabara, Lúcia Benites, Otávio Lemos e Irene Vasconcelos são personagens fictícios. Os fatos citados são públicos e a opinião é de cada personagem.