De onde sairiam os R$ 250 bilhões no orçamento de 2027?
Hoje, 20 de outubro de 2026, a pergunta que circula é como um governo de Flávio Bolsonaro recuperaria mais de R$ 250 bilhões que faltariam ao orçamento do ano que vem. A folha dos servidores sofreria. O que seria vendido a interesse estrangeiro. A conta contaria com juros menores do Banco Central. O gasto discricionário e o investimento da União iriam a zero.
O número de R$ 250 bilhões não está escrito assim no Projeto de Lei Orçamentária de 2027. Ele aparece na Folha de S.Paulo de 7 de outubro de 2026, na reportagem de Fernando Canzian. A equipe do programa econômico de Flávio estuda um pacote de contenção das despesas obrigatórias para um ajuste inicial da ordem de 2% do PIB, cerca de R$ 250 bilhões. A reportagem diz que a meta é vista pelos assessores como o sinal para reduzir a percepção de risco, aliviar a pressão sobre os juros e estabilizar as contas. A campanha respondeu à Folha que conversa informal, leitura de terceiro e especulação não são posição oficial, e que a orientação está no plano de governo e nas falas públicas de Flávio Bolsonaro, Rogério Marinho, Daniella Marques e Adolfo Sachsida.
O papel que o governo entregou ao Congresso em 31 de agosto de 2026 diz outra coisa. O Ministério do Planejamento e Orçamento publicou o PLOA de 2027 com superávit primário cheio de R$ 18,6 bilhões, sem os descontos da lei do regime fiscal. O resultado que conta para a meta é de R$ 83,4 bilhões, R$ 10,1 bilhões acima do centro da meta de 0,5% do PIB, de R$ 73,2 bilhões. O limite das despesas primárias é de R$ 2,576 trilhões, R$ 183,8 bilhões acima do limite de 2026, alta de 7,7%, dos quais 4,64% são o IPCA em doze meses até junho e 2,5% são crescimento real. Saúde: R$ 272,2 bilhões, o próprio piso. Educação: R$ 141,2 bilhões, acima do piso de R$ 138,8 bilhões. Investimentos: R$ 133,8 bilhões, acima do piso de R$ 88,7 bilhões. O salário mínimo estimado é de R$ 1.741, com INPC de 4,93% em doze meses até novembro mais 2,3% de aumento real. O orçamento total previsto é de R$ 7,449 trilhões. Desse total, R$ 3,821 trilhões são despesas financeiras, R$ 3,418 trilhões são despesas primárias e R$ 209,7 bilhões são o orçamento de investimento das estatais. A proporção das obrigatórias nas despesas primárias cairia de 92,4% em 2026 para 91,7% em 2027. Como houve déficit primário em 2025, o crescimento real da despesa de pessoal e encargos em 2027 fica limitado a 0,6%, fora as sentenças judiciais. Outro gatilho, o da Lei Complementar 235/2026, limita o crescimento das despesas com receita legalmente vinculada ao IPCA mais 2,5%, por causa da projeção de déficit em 2026. Esses freios já estão no projeto do governo atual. Não são medida de um governo que ainda não começou.
A Agência Brasil, em 16 de outubro, registra que Daniella Marques disse à GloboNews, em agosto, que o plano inclui um ajuste de 1,5% do PIB, algo em torno de R$ 190 bilhões, tomando o PIB de 2025. O Metrópoles, em 19 de outubro, atribui à Instituição Fiscal Independente do Senado uma projeção de déficit de R$ 86,1 bilhões para 2027. No mesmo dia, a CNN Brasil e o Metrópoles registraram nota do Ministério do Planejamento: remanejar cerca de R$ 20 bilhões dentro do orçamento de 2027, pouco mais de 1% das despesas primárias sujeitas ao limite, sem elevar o teto e sem alterar a meta. R$ 250 bilhões, R$ 190 bilhões, R$ 86,1 bilhões e R$ 20 bilhões não são a mesma conta.
A Folha descreve de onde sairia o ajuste estudado. O núcleo seria desvincular o reajuste da Previdência e do BPC do ganho real do salário mínimo. Se houvesse aumento real para quem está na ativa, a aposentadoria do INSS e o BPC poderiam subir menos, ou só pelo INPC. A reportagem diz que o valor real do benefício ficaria preservado, e que o efeito estancado seria o do aumento acima da inflação sobre a folha da Previdência. Dos mais de 41 milhões de benefícios do INSS, cerca de 70% estão no piso. Em paralelo, o estudo acabaria com a vinculação de 15% da receita corrente líquida para a saúde e de 18% da receita líquida de impostos para a educação, e passaria a corrigir esses gastos pela inflação. Os números que a Folha toma do Centro de Debate de Políticas Públicas não fecham R$ 250 bilhões no primeiro ano. Limitar o reajuste dos benefícios à inflação renderia R$ 15 bilhões no ano inicial e R$ 238,5 bilhões ao ano em 2035, com R$ 1,1 trilhão acumulados em dez anos. A mudança dos pisos de saúde e educação, com a complementação do Fundeb, renderia R$ 29 bilhões no ano inicial e R$ 145 bilhões no fim da década, com R$ 800 bilhões acumulados. A soma desses dois valores de primeiro ano, R$ 15 bilhões e R$ 29 bilhões, é R$ 44 bilhões. O patamar de R$ 250 bilhões é o tamanho que o pacote deveria alcançar, com um cardápio de cerca de dez medidas numa Super PEC entre a eleição e a posse. As dez medidas não foram publicadas uma a uma. A mesma reportagem diz que, nos bastidores, o trabalho inclui trocar o arcabouço por uma âncora de dívida sobre o PIB, privatizações, corte de ministérios, fim de supersalário, revisão de subsídio e desregulamentação. Isso é o que a Folha apurou. A assessoria disse que não está no plano oficial.
A folha de pagamento dos servidores ativos não é o núcleo desse estudo. O núcleo nomeado é a folha da Previdência e os pisos da saúde e da educação. Para o servidor da ativa, o que está publicado é outro recorte. A Agência Brasil resume a proposta de Flávio como nova regra fiscal ligada à trajetória da dívida, menos ministérios, menos cargo comissionado e menos despesa administrativa. O Tempo, em 16 de outubro, registra entrevista de Flávio à Globo. A chamada diz que ele descartou mudanças nas aposentadorias e nos pisos de saúde e educação, prometeu manter o reajuste do salário mínimo e apresentou corte de ministérios. O texto traz a fala em que ele nega que acabaria com os servidores públicos e que privatizaria Banco do Brasil, Caixa e Petrobras, e fala em cortar ao menos dez dos 39 ministérios. Adolfo Sachsida, em vídeo de 8 de outubro registrado pela Forbes e pelo UOL, disse que o ajuste seria nos excessos, citou o combate ao supersalário e deu como exemplo um funcionário público que ganhasse R$ 200 mil por mês. Disse também que Petrobras, Banco do Brasil e Caixa não seriam privatizadas. O PLOA já trava o crescimento real do pessoal em 0,6% em 2027, pelo gatilho do déficit de 2025. Nenhum desses papéis diz que o vencimento ordinário da carreira é a fonte dos R$ 250 bilhões.
O que seria leiloado a interesse estrangeiro também não está numa lista. A Folha cita privatizações no trabalho de bastidor, sem o nome da empresa e sem a nacionalidade de quem compraria, e a campanha disse que esse trabalho não é posição oficial. Sachsida afirmou que Petrobras, Banco do Brasil e Caixa não seriam tocadas. Nos textos que conferi não há o trio que tornaria a venda um fato: o bem, o edital e o comprador. Sem esse trio, venda a interesse estrangeiro continua pergunta.
Contar com a queda dos juros do Banco Central não recupera, no resultado primário, os R$ 250 bilhões. A meta fiscal olha a despesa primária. Juro fica fora dela. A Folha diz que os assessores veem o pacote como sinal para aliviar a pressão sobre os juros, e que uma Super PEC rápida derrubaria o prêmio de risco e a curva antes da posse. Isso é expectativa de mercado, não decisão do Copom, e não é receita primária. A Selic que a Bloomberg registrava em 13 de outubro era de 13,75% ao ano. O Boletim Focus daquela data, na leitura da Bloomberg, reduziu a projeção da Selic no fim de 2026 de 13,50% para 13,25%. Meio ponto numa projeção de economistas não fecha um ajuste de R$ 250 bilhões, e projeção não é ata do Copom. O PLOA separa R$ 3,821 trilhões em despesas financeiras. Esse bloco inclui rolagem de dívida. Eu não transformo esse bloco em alívio de R$ 250 bilhões.
Gasto discricionário e investimento a zero também não estão no papel. O PLOA programa R$ 133,8 bilhões de investimentos, acima do piso de R$ 88,7 bilhões. Zerar essa linha não produz R$ 250 bilhões, e o projeto não a zera. As obrigatórias são 91,7% das despesas primárias em 2027, no próprio PLOA.
Enquanto o cardápio de dez medidas não sair com valor, R$ 250 bilhões é a ordem de grandeza de um estudo que a própria campanha não assume. O orçamento que está no Congresso é outro documento. Ele prevê superávit, não um buraco desse tamanho.